Pra que serve a utopia?
Se a utopia serve para alguma coisa,
Se é que a utopia tem que servir
A utopia é como o horizonte
Nós olhamos para o horizonte
E caminhamos para ele,
Caminhamos e caminhamos,
Eu nunca vou alcançar o horizonte
É pra isso que a utopia serve
Para nos fazer caminhar.
(EDUARDO GALEANO)
A turma na qual leciono é para mim, como a utopia para Galeano, ela me faz caminhar. Estou há três anos acompanhando a turma, é claro que nem todas as crianças são as mesmas, umas se foram para outros colégios, outras estão em outro horário na mesma escola, mas mesmo longe, continuamos mantendo contato, seja pelo facebook, seja através de cartinhas ou até mesmo em encontros na rua.
Foram estas crianças que me ensinaram a ser a professora que sou hoje.Quando cheguei a escola recém concursada em um município que há 8 anos não fazia concurso me vi muito sozinha. o corpo docente e a administração da escola era em sua maioria de funcionários contratados.No primeiro segmento do Ensino Fundamental só havia eu de concursada. A minha entrada na escola representava o início do fim de uma gestão. Para se ter ideia de como eu era vista pelos demais, citarei a frase dita regularmente pela prefeita anterior do município "o concursado é o câncer do sistema público" .E como tal, não fui bem recebida, as demais professoras não falavam comigo e o administrativo era arrogante. A tão sonhada autonomia metodológica não existia, tampouco os recursos que eu tanto almejava. Não tinha Xerox, não tinha giz, não tinha sabonete nos banheiros para as crianças lavarem as mãos, não tinha nada.
Recém formada em uma universidade pública tive todos os meus sonhos frustrados, como trabalhar assim? Era o que me perguntava a todo instante?Em pouco tempo estava me parecendo com as professoras frustradas e infelizes na profissão que tanto eu criticara durante a faculdade. Em nada eu parecia com aquela professora cheia de entusiasmo dos tempos de faculdade.
Mas, tudo mudou quando eu participei do Seminário interativo PIBID/UFF. Fui convidada pelas minhas orientadoras de monografia. Ambas fazem desde 2009 um trabalho maravilhoso em escolas públicas do município de Niterói e eu havia sido bolsista por três anos do projeto. Trabalhávamos alfabetização por projetos nas turmas de crianças com deficit série/idade. Uma das professora convidou-me para falar, dar um depoimento sobre a metodologia e eu utilizei todo o meu tempo para reclamar da escola e da dificuldade em se trabalhar por projetos na escola pública sem o apoio do Programa Institucional de bolsa de Iniciação à Docência. Minha orientadora me deu uma chamada e me disse que eu parecia uma professora velha e chata que só sabe reclamar. Foi então que eu acordei. Eu estava deixando que as pessoas e suas hostilidades me transformassem em uma pessoa que eu não era. Estava esquecendo o meu sonho de transformar a educação, de formar crianças críticas, curiosas e que veem a escola como um lugar privilegiado de interação e aprendizagem. Eu estava me tornando tudo o que eu criticava. A mudança veio através da fala da minha professora: " você está sozinha? Não tem com quem trocar? E aquelas 30 "pessoinhas" que estão em sala com você todos os dias?" A partir dessa fala eu passei a vê-los não como alunos, mas como companheiros em busca, não mais do meu sonho, mas dos nossos sonhos. Os materiais que eu tanto precisava passaram a serem substituídos por outros, reciclados, passamos a construir nossos jogos, fiz parcerias com pais e professores de outras escolas. Hoje, as coisas estão bastante mudadas, a escola está cheia de concursados, as mentalidades mudaram, a inércia e o apego a práticas antigas tem abandonado a gestão e o corpo docente mais resistente a mudanças, claro, a passos lentos, mas estamos caminhando. Crianças de outras turmas e turnos me conhecem e pedem para estudar na minha turma. Não há nada melhor que o reconhecimento das crianças, elas sentem que são reconhecidas e respeitadas como legítimos outros, sujeitos da cultura, que como diz FREIRE, tanto podem ensinar quando aprendem, quanto podem aprender quando ensinam, e nesta relação que tem por base o respeito mútuo, continuamos caminhando em busca de nosso horizonte.