terça-feira, 19 de agosto de 2014

A saudade do que ainda não veio.

Narrativa do dia 08 de julho de 2014



Eu sou feito de sonhos interrompidos
 Detalhes despercebidos 
Amores mal resolvidos. 
Sou feito de Choros sem ter razão.
 Pessoas no coração
 Atos por impulsão. 
Sinto falta de Lugares que não conheci
 Experiências que não vivi 
Momentos que já esqueci.

Será possível ter saudade do que ainda não se viveu? Ultimamente, tenho acreditado que sim, pois estou com vocês, mas já sinto saudades de quando eu não estiver mais aqui.

Os ultimos dias têm sido difíceis para mim, pois está se aproximando o dia que terei de deixar meus queridos alunos com os quais tenho caminhado há três anos. Irei trilhar, agora, um novo caminho, com outros personagens, em uma nova escola, uma nova turma me espera.

Ontem, sexta-feira, pareceu-me pior. A sensação que vou deixá-los tornou-se mais pesada. Tenho tido pesadelos constantes. Em alguns estou sozinha em uma sala de aula enorme, em outros sonhos, meus alunos me chamam, eu estou lá, consigo ouvi-los, mas não os vejo. As vezes acho que sentirei mais falta deles do que eles de mim. Nunca pensei que fosse possível amar tantos ao mesmo tempo.

Não dá pra ser professora de vez em quando, apenas quando se está na escola, levamos nosso trabalho pra casa em pensamento, caso alguma criança esteja com dificuldades, tanto emocionais, quanto de aprendizagem, aquilo nos afeta e começamos a buscar uma solução. Por que nós professores lidamos com GENTE  e LUTAMOS para formar pessoas, CIDADÃOS CRÍTICOS E CONSCIENTES DE SEU PAPEL SOCIAL. A profissão de professor me faz ser uma pessoa realizada todos os dias,  porque possibilita que eu trate cotidianamente com seres humanos em formação que me cativam, me afetam, me instigam a pesquisar e a amar mais a cada dia. FREIRE, nos orienta em seu livro Pedagogia da Autonomia quanto a essa relação de amor, respeito, carinho entre professor e educando tão necessárias às relações educativas.
No prefácio de Pedagogia da Autonomia, Édina Castro de Oliveira, afirma que a obra trata de uma pedagogia fundada na ética, no respeito à diginidade a à própria autonomia do educando.

E um saber, como os demais, que demanda exercício permanente do educador. “É a convivência amorosa com seus alunos e na postura curiosa e aberta que assume e, ao mesmo tempo, provoca-os a se assumirem enquanto sujeitos sócio-histórico-culturais do ato de conhecer, é que ele pode falar do respeito à dignidade e autonomia do educando. [...] A competência técnica científica e o rigor de que o professor não deve abrir mão no desenvolvimento do seu trabalho, não são incompatíveis com a amorosidade necessária às relações educativas. Essa postura ajuda a construir o ambiente favorável à construção do conhecimento onde o medo do professor e o mito que se cria em torno de sua pessoa vão sendo desvelados” (OLIVEIRA, Pedagogia da Autonomia, pág 11)


A angustia que a mim consome, talvez tenha raízes em inúmeras razões. A primeira delas encontra-se no fato de considerá-los não apenas meus alunos, mas companheiros, parceiros, co-autores do planejamento e do desenvolvimento das aulas. A segunda, está nos laços afetivos que criamos. Somos amigos e cumplices no dia a dia da escola. E a terceira razão está pautada no medo  do por vir, do desconhecido. Quem ficará com meus alunos? Será que dará continuação ao trabalho que vem sendo feito nesses três anos de convívio? Caso não dê continuação, como será que meus alunos irão reagir a essa troca de concepções pedagógicas? Essas perguntas por hora sem respostas tornam minha partida mais difícil.

Durante a aula de pós-graduação, desta sexta-feira, a professora Regina Leite Garcia em parceira com o professor José Guilherme propuseram a turma que refletíssemos sobre a responsabilidade da educação. De quem é? 
Quando a questão nos foi feita, eu mentalmente respondi:
 -De todos. 
E como se lêsse meus pensamentos, Regina perguntou novamente:
 - De todos quem? Dos pais, dos professores, dos governantes?
Trazendo aquela pergunta para minha experiencia particular, lembrei-me novamente de meus alunos. De quem seria a responsabilidade de educá-los? De alfabetizá-los, não só nas letras, mas no mundo?

À medida que as colegas de turma se colocavam através de suas narrativas, fui pensando  na realidade cotidiana de minha escola, surpreendendo-me ao mesmo tempo em que me entristecia com a similaridade dos discursos.

Uma das falas, traz para a roda a discussão sobre a diversidade entre os alunos:
- São tão diferentes em seus conhecimentos, as idades tão distintas, estão todos na mesma sala. Como fazer para lidar com isso?
A pergunta feita pela colega é colocada para a reflexão do grupo. Então. penso no Igor, no Jefferson, no Gabriel, Paulo Ricardo e tantos outros alunos distintos e distantes em seus conhecimentos culturalmente construídos, mas tão próximos geograficamente uns dos outros.
Bem a resposta por mim encontrada para lidar com essa feliz pluralidade de conhecimentos, foi colocá-los em interação, propor trabalhos em grupo em que haja troca de saberes, possibilitar através de atividades que os conhecimentos do Igor, tantas vezes não reconhecidos pela escola sejam potencializados e que os saberes do Jefferson sejam compartilhados e que juntos possam solucionar problemas que antes não poderiam fazer sozinhos. Vygotsky chamou de zona de desenvolvimento proximal esse nível de desenvolvimento em que os estudantes podem resolver problemas com “apoio”(Lester 1994, p.4), ou seja, com a moderação do conhecimento e a interação social,  dessa forma os estudantes podem aprender coisas que não aprendiam sozinhos.
Como os pensamentos, assim são os  fios em uma máquina de tear, um puxa o outro e nesse vai e vem sem fim vão se entrelaçando e formam redes de saberes e conhecimentos. Assim, meus pensamentos se fizeram nesse dia, por isso quando pensei nos conhecimentos que devem ser compartilhados em sala de aula, logo lembrei que  a palavra COMPARTILHAR só ganha vida, essência na potência do encontro, da fala, da troca de ideias que possibilita sermos MAIS. Contudo tal coisa será impossível se cada aluno continuasse no seu "quadrado", enfileirado , entrincheirado atrás de carteiras que os imobilizam.

E, é nesse movimento de desconstrução de uma prática que imobiliza os corpos, cala os corações e anestesia as mentes que minha turma fala, conversa, senta, levanta, produz, vê foto, opina, vota, propõe, elege, faz assembleia, pesquisa, pinta e borda, e nesse quadro de aparente desordem, estamos permanentemente construindo nosso planejamento.