No último
domingo, dia 22/09, em algumas praias do Rio de Janeiro, banhistas sofreram com
a onda de arrastões. Jovens das classes populares tocaram o terror nas praias
fazendo roubos e provocando muita confusão. Após o domingo quente, as autoridades
policiais se manifestaram nas mídias. O secretário de segurança do Rio de
Janeiro, José Mariano Beltrame, em entrevista ao Jornal Hoje afirmou: “Nós
estávamos fazendo um trabalho preventivo de parar e revistar jovens a caminho
da praia. Nunca vi isso! Em qualquer país do mundo a polícia faz esse trabalho
sem mais problemas, só aqui no Brasil é que é assim.”
Beltrame só esqueceu de dizer que as incursões
feitas pelos policiais aos ônibus no Rio de Janeiro não eram apenas de abordagem
e revista. Eles retiravam os menores dos ônibus sob critérios que somente a
polícia conhece, algemavam e os levavam para a delegacia, sem que os mesmos tivessem
portando flagrantes ou cometido algum delito. No entanto, o que ele chama de
uma ação preventiva fere a Constituição Federal, pois consta no art.5º inciso
XV que Todos são iguais perante a lei,
sem distinção de qualquer natureza e ainda garante a livre locomoção no território nacional, ou seja, é garantido por
lei o direito de ir e vir. Assim, a
ação dos policiais se caracteriza evidentemente como uma ação ilegal, salvo se
estivéssemos em guerra. A fala do Secretário Beltrame se justificaria se esse
fosse o caso (ou será que estamos?).
Caro leitor,
não sou a favor da violência cometida pelos menores, tampouco sou a favor da
impunidade. Sou tão cidadã desta cidade quanto você e sofro com o estado de
violência e insegurança que nos encontramos. Mas legitimar uma ação ilegal, com
a justificativa que a execução desta poderá, hipoteticamente, impedir que outra
ação ilegal aconteça, é impedir um crime com outro. Então, por que não jogamos
uma bomba nas favelas e explodimos logo todos esses que se encontram à margem
da sociedade e que insistem em nos “incomodar” em nosso lindo domingo de sol?
Vamos exterminar todos porque um dia, não tão distante, poderão jogar em nossa
cara, além de areia, que essa sociedade de democrática e justa não tem nada.
A solução é
simples?
Matamos o mal
pela raiz? Encarceramos todos esses deliquentes, reduzimos a maioridade penal e
construímos um grande muro separando a elite da classe popular? Fazemos isso ou
nos perguntamos: quem são esses menores infratores? “Coincidentemente”, caro
leitor, são em sua grande maioria negros, pobres e favelados, herança do nosso
país colonial e escravocrata.
Será que os
governantes não veem que a praia é um dos poucos pontos de lazer gratuitos no
estado e impedir que a classe popular vá a praia só aumenta o vapor na “panela
de pressão” que é o atual estado do Rio de Janeiro. E se a (re)pressão aumenta, apenas
legitimamos a segregação racial. Ops, não temos segregação racial no Brasil. Ou
será que temos?
Ah, sei que
você, já deve estar revoltadíssimo com todas essas linhas, afinal de contas,
não é justo roubarem nosso smartphone, conquistado com o fruto do suor do nosso
trabalho, não é mesmo? Dessa maneira, vamos aplaudir os rapazes brancos da zona
sul que heroicamente quebraram os vidros dos ônibus e surraram os meninos
negros favelados, arrancando-lhes a socos e pontapés dos coletivos.
Se a polícia
e nós cidadãos continuarmos agindo por conta própria sem respeitar as leis
máximas de nossa nação e da vida humana, se não refletirmos a respeito dos
caminhos que temos tomado como sociedade, até o presente momento, e seguirmos ratificando
as ações ilegais dos representantes do governo, e daqueles que fazem justiça
com as próprias mãos, onde iremos chegar? Como diz Robespierre, voltaremos ao estado de
natureza e o caos se instalará entre nós.
A expressão “o
homem que é lobo do homem” (Hobbes) traduz o estado das coisas que estamos
vivendo ─ fazendo o que for necessário para proteger e garantir a nossa propriedade,
tomando decisões individualistas, estamos nos desumanizando. De acordo com
Freire, grande educador brasileiro, se a
educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda.
Por Elaine
Rusenhack (Pedagoga) e Rita Campos (professora de Português)
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